sábado, 12 de julho de 2025

LÁ ELE : CRISÃO OU ENGANANDOR?

 

Lá Ele: O Cristão Mais Polêmico do Bairro.

No bairro da Esperança, todo mundo conhecia  Lá Ele. O apelido pegou quando ele, ainda adolescente, ouviu alguém fazer uma piada estranha e respondeu com desdém: “Lá ele!”. A expressão virou sua marca registrada, e o nome verdadeiro dele, Jonas, foi completamente esquecido.

Lá Ele era um personagem controverso. Aos olhos da vizinhança, ele era um cristão devoto. Não perdia um culto, sabia recitar versículos de cor e fazia questão de postar nas redes sociais fotos da Bíblia aberta com a legenda: *“Deus no comando, sempre!”*. Mas, quando ninguém estava olhando, a vida de Lá Ele era um contraste gritante com suas postagens.

Ele tinha um histórico de pedir dinheiro emprestado. Era sempre a mesma ladainha:  

— Irmão, você sabe, né? Tô passando por uma prova de fé, mas Deus vai restituir. Tem como me ajudar com uns trocados?  

Os vizinhos, movidos pela compaixão (e um pouco de medo de "negar ajuda a um homem de Deus"), acabavam emprestando. O problema era que Lá Ele nunca pagava. Quando cobrado, ele respondia com um sorriso:  

— Calma, irmão, Deus tá vendo tudo. Ele vai te abençoar.

O dinheiro que ele pedia, no entanto, não ia para as contas de luz ou para ajudar a família. Lá Ele era cliente assíduo de um beco suspeito na periferia, onde comprava cocaína e crack. Durante a semana, enquanto a maioria dos fiéis estava trabalhando, Lá Ele desaparecia e só voltava à noite, com os olhos vermelhos e a fala embaralhada. Mas, no domingo, ele estava lá, de terno, bíblia na mão, liderando o coral com fervor.

Um dia, tudo começou a desmoronar. Lá Ele havia pedido uma quantia alta a Dona Jandira, uma senhora aposentada e muito respeitada na igreja. Disse que precisava pagar uma cirurgia urgente para sua mãe, que estava acamada. Jandira, comovida, emprestou o dinheiro. Só que, em vez de ajudar a mãe, Lá Ele gastou tudo em uma festa regada a drogas e bebidas.

A fofoca se espalhou rápido. No próximo culto, enquanto o pastor pregava sobre honestidade, Lá Ele estava inquieto no banco. Foi quando Dona Jandira, sem conseguir se segurar, levantou a mão e pediu para falar:  

— Pastor, desculpe interromper, mas eu preciso falar algo. O irmão Lá Ele me pediu dinheiro emprestado para ajudar a mãe dele, e agora eu descobri que ele gastou tudo em coisa errada! Isso é certo?

O templo ficou em silêncio. Todos os olhos se voltaram para Lá Ele, que tentou manter a compostura.  

— Irmã, não fale assim de mim! Eu tô lutando contra ataques do inimigo. O diabo tá tentando manchar meu nome porque eu sou um escolhido de Deus!

Mas a igreja não engoliu. Foi uma avalanche de cobranças. Gente que havia emprestado dinheiro, outros que tinham visto Lá Ele no beco das drogas, e até a dona da mercearia, que revelou que ele comprava fiado e nunca pagava. Lá Ele tentou se defender, mas não teve jeito. O pastor, com a voz firme, decretou:  

— Lá Ele, você precisa de ajuda. Nós vamos orar por você, mas isso não pode continuar assim. Deus ama a verdade, e você precisa se arrepender de coração.

A partir daquele dia, Lá Ele sumiu da igreja e do bairro. Alguns dizem que ele foi para outra cidade, tentar recomeçar. Outros juram que ele ainda aparece no beco, sempre com a desculpa de que está “evangelizando”. O que ninguém sabe é se Lá Ele realmente mudou ou se continua vivendo no limite entre a fé e o caos.

Esse é o conto do Lá Ele, um personagem cheio de nuances e contradições, que carrega as marcas de quem tenta sustentar uma máscara enquanto luta com seus próprios demônios.

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