segunda-feira, 30 de junho de 2025

CONTOS & ENCANTOS: CONTO DE AMOR - " QUANDO O AMOR RESISTE À QUEDA"


A Gordinha, Lá Ele e o Amor que Renasceu

Em um final de tarde comum, o mercado do bairro estava movimentado. Lá estava ela, uma jovem cheia de vida, com seus cabelos cacheados presos em um coque desajeitado e um sorriso tímido que iluminava o rosto. Ela não era do tipo que chamava atenção à primeira vista, mas havia algo em sua tranquilidade e naturalidade que fazia quem prestasse atenção se encantar. Seu apelido carinhoso entre os amigos era "Gordinha", um apelido afetuoso que ela carregava com orgulho e humor.

Ele, por outro lado, era o tipo de pessoa que parecia estar sempre no lugar certo e na hora certa. Alto, um pouco desajeitado, com um estilo descontraído e um olhar curioso, "Lá Ele", como era chamado pelos amigos, tinha fama de não se interessar por nada sério. Era o tipo de pessoa que estava sempre rindo, mas, naquele dia, algo diferente aconteceu.

Gordinha empurrava seu carrinho pelo corredor de enlatados, distraída, enquanto conferia sua lista de compras. Foi então que, ao virar na sessão de massas, ela esbarrou sem querer no carrinho de Lá Ele, que estava parado, indeciso entre dois tipos de macarrão.  

— Ah, desculpa! — disse ela, sem graça, tentando desviar o carrinho.  

Ele sorriu. Um sorriso simples, mas tão genuíno que a fez parar por um segundo.  

— Sem problema. Escolha difícil, né? — respondeu ele, segurando os dois pacotes de macarrão nas mãos. — Integral ou com ovos?  

Ela riu, apontando para o pacote da direita.  

— Vai com o de ovos. Integral é bom, mas a vida já é complicada demais para macarrão sem graça.  

Lá Ele gargalhou.  

— Boa lógica. Vou seguir seu conselho, então.  

A conversa, que parecia ser só um encontro casual, acabou se estendendo. Eles trocaram dicas de receitas, riram de preferências curiosas — como o fato de Gordinha odiar coentro e Lá Ele achar que ketchup combina com qualquer coisa. Quando se deram conta, estavam juntos no caixa, com os carrinhos quase idênticos, e o mercado parecia mais vazio do que quando haviam chegado.  

— Então, você cozinha? — perguntou ele, enquanto ajudava a colocar as compras nas sacolas.  

— Cozinho. Não sou nenhuma chef, mas dá para o gasto. E você?  

— Eu me viro. Quer dizer... talvez eu precise provar as suas receitas para aprender alguma coisa.  

Ela sorriu, sentindo as bochechas corarem.  

— Quem sabe...  

Na semana seguinte, o encontro se repetiu. Dessa vez, não foi por acaso. Lá Ele apareceu no mercado no mesmo horário, e lá estava ela, na sessão de frutas. Ele fingiu surpresa ao encontrá-la, mas ela sabia que era intencional.  

— Você de novo! — disse ele, com um sorriso.  

— Mercado é o meu ponto turístico favorito, aparentemente.  

Dessa vez, ele tomou coragem de convidá-la para um café depois das compras. Em pouco tempo, o mercado virou o lugar deles. Toda semana, eles se encontravam entre as prateleiras, riam juntos e trocavam histórias sobre suas vidas. O que começou como uma amizade despretensiosa foi se transformando em algo mais.  

Certo dia, enquanto caminhavam juntos para os carros, Lá Ele parou de repente.  

— Gordinha, posso te perguntar uma coisa?  

Ela virou para ele, surpresa com o tom sério.  

— Claro.  

— Eu sei que a gente se conheceu meio por acaso, mas... você acha que a gente poderia transformar esses encontros no mercado em algo mais?  

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, o coração acelerado.  

— Algo como...?  

Ele deu um passo à frente, olhando-a nos olhos.  

— Algo como um jantar. Só nós dois. Sem carrinhos de compras.  

Ela sorriu.  

— Acho que pode ser uma boa ideia. Mas só se você prometer não colocar ketchup na comida.  

Eles riram, e ali, no estacionamento do mercado, sob o céu alaranjado do entardecer, ele segurou sua mão pela primeira vez.  

O jantar aconteceu, seguido por outros encontros, e antes que percebessem, o mercado deixou de ser apenas o lugar onde se conheceram. Tornou-se o símbolo de um amor que nasceu entre prateleiras, cresceu com risadas e se fortaleceu com a simplicidade de serem apenas eles mesmos.  

E toda vez que passavam pela sessão de macarrão, eles sorriam, lembrando daquele dia em que um esbarrão transformou suas vidas para sempre.

Lá Ele e Gordinha viviam momentos felizes. O relacionamento deles parecia tão leve e natural quanto os sorrisos que eles trocavam. Ele era divertido, atencioso, e fazia de tudo para vê-la feliz. Gordinha, por sua vez, era o equilíbrio perfeito: sua paciência e doçura acolhiam qualquer insegurança que ele carregava. Mas, como nem toda história de amor é um conto de fadas, a vida decidiu testar os dois de uma forma inesperada.

Um dia, meses depois de começarem a namorar, Lá Ele começou a se comportar de forma diferente. Ele, que sempre fora pontual e dedicado no trabalho, começou a chegar atrasado. Às vezes, nem aparecia. As mensagens para Gordinha, que antes eram constantes e carinhosas, passaram a diminuir. Ele parecia estar distraído, distante. 

Certo dia, enquanto tomavam café na casa dela, Gordinha tentou puxar assunto.

— Tá tudo bem com você? Parece que você tá... diferente.  

Ele deu um sorriso forçado, desviando o olhar.

— Só cansaço. Muito trabalho, sabe?  

Mas Gordinha sabia que não era só isso. Algo estava errado.

A Queda

O que ela não sabia é que, há algumas semanas, Lá Ele havia sido apresentado a um grupo de colegas de trabalho que tinham um estilo de vida mais, digamos, complicado. Em uma dessas saídas, ele experimentou maconha pela primeira vez, algo que ele jurava ser apenas "curiosidade". Mas aquela curiosidade rapidamente se transformou em algo mais.

Conforme os dias passavam, ele começou a frequentar festas em que outras substâncias estavam disponíveis. Foi ali que ele conheceu o crack. No início, ele dizia a si mesmo que era “só dessa vez” ou “só por diversão”. Mas a verdade era que ele estava se perdendo, e a frequência com que usava aumentava. Lá Ele começou a negligenciar o trabalho, as responsabilidades, e até mesmo Gordinha.

Em um sábado à noite, quando eles haviam combinado de se encontrar para assistir a um filme, Lá Ele simplesmente não apareceu. Gordinha ligou várias vezes, mas ele não atendia. Preocupada, ela foi até a casa dele. Ao chegar, encontrou-o sentado no sofá, com um olhar vazio, cercado por latas de cerveja e um cinzeiro cheio.

— Lá Ele, o que tá acontecendo com você? — perguntou ela, desesperada.

Ele não respondeu de imediato. Apenas abaixou a cabeça e murmurou:

— Eu tô perdido, Gordinha. Não sei o que fazer.  

Ela se sentou ao lado dele, segurou sua mão e disse com firmeza:

— Você não tá sozinho. A gente vai dar um jeito nisso.  

O Fundo do Poço

Mas nem o amor de Gordinha foi suficiente para impedir que ele chegasse ao fundo do poço. A dependência só crescia, e as consequências começaram a aparecer. Lá Ele foi demitido do trabalho após faltar repetidamente e ser flagrado em estado alterado. Os amigos que o apresentaram a esse mundo desapareceram, e ele se viu sozinho.

Gordinha, mesmo magoada, não desistiu dele. Mas ela sabia que não podia obrigá-lo a mudar. Ele precisava querer ajuda.

Foi em uma noite fria, enquanto andava sem rumo pelas ruas, que Lá Ele passou em frente a uma igreja. Ele ouviu o som de um coral cantando e, por algum motivo, sentiu-se atraído a entrar. Sentou-se em um dos bancos do fundo, com a cabeça baixa, enquanto as pessoas cantavam e rezavam. Pela primeira vez em meses, ele sentiu algo diferente: um misto de arrependimento e esperança.

Quando o culto terminou, um pastor se aproximou dele.

— Tudo bem, meu jovem? — perguntou o homem, com um olhar acolhedor.

Lá Ele hesitou, mas acabou desabando. Contou tudo: as drogas, a perda do emprego, o afastamento de Gordinha, a sensação de estar perdido. O pastor ouviu com calma e, ao final, disse:

— Você cometeu erros, mas isso não define quem você é. O importante é reconhecer que precisa de ajuda. E a boa notícia é que você não precisa enfrentar isso sozinho.  

O Recomeço

A partir daquele dia, Lá Ele começou a frequentar a igreja regularmente. Ele participou de grupos de apoio e procurou tratamento para sua dependência. Foi um processo longo e difícil, com recaídas e momentos de desespero, mas ele se manteve firme.

Gordinha, embora machucada pelo que aconteceu, continuava ao seu lado. Ela sabia que o homem por quem se apaixonou ainda estava ali, lutando para voltar à superfície.

— Eu tô orgulhosa de você, sabia? — disse ela um dia, enquanto caminhavam juntos após uma reunião de apoio.

Ele olhou para ela, com os olhos marejados.

— Eu não sei o que teria acontecido comigo se você não tivesse ficado. Eu te machuquei tanto...  

— O importante é que você tá aqui agora. E eu sei que você é mais forte do que tudo isso.  

Com o tempo, Lá Ele conseguiu retomar sua vida. Ele encontrou um novo emprego, reconstruiu a confiança com Gordinha e passou a ajudar outras pessoas que enfrentavam as mesmas dificuldades que ele. O relacionamento deles nunca foi perfeito, mas foi verdadeiro. Juntos, eles aprenderam que o amor não é apenas sobre os momentos bons, mas sobre apoiar um ao outro quando tudo parece desmoronar.

E, toda vez que passavam pelo mercado onde se conheceram, Gordinha fazia questão de lembrar:

— Tá vendo? Foi aqui que você me encontrou. E foi aqui que eu soube que te amaria, mesmo nos dias difíceis.

Lá Ele sorria, sabendo que, apesar de tudo, o amor deles era a maior prova de que recomeços são possíveis.

FIM

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